sentimentos feitos à tinta

ii.

a primeira cor
um azul fosco, no quadro,
é a noite, mal iluminada
ocupa todo o plano,
enegrece
a vida de uma amada.

a lua, logo em seguida,
(um amarelo claro
um branco
e um cinza)
ilumina
a noite de quem não dorme
e conta estrelas todo dia

linhas tortuosas
representam o rio
o reflexo do que se vê
as estrelas no céu
e os pensamentos que vão
junto da correnteza
a falta de certeza
de que o sol nasce todo dia

traços em preto
o banco
onde estará um casal apaixonado.
detalhes em branco
é a lua falando
que esse casal lá está toda semana;
dá uma ótima
história de amor
que a cada pincelada
acrescenta mais cor
o quadro, como um todo,
em perfeita harmonia,
representa uma cena comum
retratada com exata simetria.
são os sentimentos do artista
resumidos a cores frias e marcantes
uma tristeza gritante,
vinda do coração de um idealista.

contos de garrafa

i.
um brinde aos depravados
e aos loucos de plantão!
todos sentados num bar
ouvindo jazz improvisado
o som me dói os ouvidos
mas permaneço sentado
o que um whisky não faz?

ii.
o barman conta a história
daquele homem que, um dia,
quase matou por amor
dentro daquele mesmo bar
mais uma dose, por favor!
e continue a falar
já não sou mais o único a ouvir
o homem foi traído
e quase teve um ataque
cambaleante, fraco
senta ao bar, pede uma cerveja
e conta do seu drama
bêbado, exagera
e já não sabe para sua casa voltar
declama seu amor, e todos
ao redor escutam, riem do homem
que seu amor continua a gritar

o homem julga como zombaria
e quebra a garrafa de cerveja em suas mãos
imediatos gritos, confusão, histeria
de súbito, ele larga os cacos de vidro
e cai bêbado no chão

o papel em minha frente
é quase que um confidente
só ele vê
o que mais ninguém sabe
um lado cheio de emoções que
chora
sofre
ama
um lado que não se abre
a não ser
se houver uma caneta
um lado que fala de príncipes e princesas
e o rei manda
“soem as trombetas”
e os anjos sobre um altar de pedra
ouvindo o suplício de uma alma perdida
sem ter como falar com mais ninguém
além dessa folha branca e fina
um lado que vê um homem correndo
atrás do seu amor
e crianças brincando no parque
com balanços e castelos de areia
uma família agradecendo a ceia
e vendo essa cena
lágrimas no rosto, ninguém entende
o que se passa no coração
de quem sofre constantemente
e não consegue verbalizar
sem ser pela escrita
o que há?
uma tragédia que ninguém vê
por que é tão difícil falar?
o rei foi embora
os anjos foram embora
a família foi embora
as crianças foram embora
e só ficaram eu
e o papel

sujeito de um dia, autor de uma vida

Pedi a Deus
até ficar sem ar
-Devolva Leminski!
-Não posso
foi o que ele disse
-Ele foi-se a dançar
dançar com as palavras
e com os sentimentos
casar


A vida é curta
para todos
os sonhos
que temos
os livros
que lemos
o amor
que merecemos


voltando da batista
vejo lá na praça sete
um homem sentado no banco
caneta de tinta a mão
e uma placa
“Escrevo 3 nomes num grão de arroz”
ora, seja franco
quanto amor cabe num grão de arroz
um nome dois três
quatro até se você pensar
pois nunca foi preciso muito
pra se saber amar

Cor de Preto

Preto.
É uma cor excelente para pessoas que vivem
em perpétuo conflito consigo mesmas.
É a cor perfeita para quem abomina a sociedade,
cheia de gente com pensamentos iguais,
ações iguais,
aparências iguais,
ideais iguais.
É a cor perfeita para quem quer ser diferente,
mas vê sua originalidade barrada pelo preconceito dos outros.
Preto é a cor da revolta.
É grito.
É sofrimento.

Na física, é a ausência de cor.
O Nada,
o vazio.
É a falta,
mas quem valorizaria o tudo
se não houvesse também ausência?
É dúvida,
questionamento,
falta de respostas.

Nas artes, é o conjunto de todas as cores.
O cheio,
completo.
O Tudo,
a tese e a antítese,
a sintaxe de um pensamento que se vê fora de contexto.

Preto pode ser o Sombrio.
O lado macabro que todos possuem,
mas apenas alguns têm coragem de admitir.
O lado que vê morte, fome,
desespero,
medo.

Preto pode ser a Noite.
O fim de um dia duro de trabalho.
Diversas contagens,
diversas vidas salvas, diversas vidas perdidas;
muitos choraram,
outros passaram por um dia ordinário.
Alguns veem o Preto como seu momento de paz,
repouso e momento de descansar;
outros passam a noite em claro, insônia,
trabalho,
vontade.
Preto.

Preto é silêncio.
Silêncio dos pais
ao ver o filhos passando por momentos difíceis.
Silêncio de um casal antes de um beijo apaixonado.
Silêncio das lágrimas de um adeus.
Preto é falta de som.
Preto é plenitude de sentimentos.

Cor que diz tudo
e não diz nada.
Cor que sente tudo
e representa o nada.
Cor de rebeldes, cor de artistas
Cor de segredos e de dúvidas.
Cor de Preto.